Eu sou a chuva amarga na segunda
Eu sou a chuva na madrugada escura
Eu sou as nuvens arrastadas num sopro
Eu sou a batida de um coração oco
Eu sou os olhos mortos de indiferença
Eu sou os olhos vivos de desgosto.
Eu sou a já sabida escolha errada
Eu sou o sofrer da cena falsificada
Eu sou o amor que rima com dor e flor
Mas também amor que rima com morte
Eu sou a cabeça com um vão profundo
Eu sou o pulso com um mero corte.
Eu sou a via que não quer ser duas
Eu sou a agonia da minha boca muda
Eu tenho mãos que servem para descanso
Eu tenho pernas que não me levam
Nem que eu peça, a nenhum lugar.
Não trabalham na hora de andar.
Eu sou o ócio consciente e culpado
Caminho que não dá para qualquer lado
Sou a chuva amarga na sexta furada
Chuva que embaça e não se enxerga nada
Eu sou o querer sair e o permanecer
Sou a permanência falha do meu ser.
Meus súditos roguem essas palavras, pois com essas palavras eu declaro abertas as festividades.
Traga seu vinho e o pão que sobra a tua mesa.
Traga olhares cansados e carinhos que não serão dispensados, traga suas palavras sinceras, vãs ou duras.
Traga a sua atenção como uma esmola.
O príncipe declara que traguem seus corações apáticos para tocar a música que nossos pés dançarão,
Até que eles cansem, quebrem e se desfaçam
E nós definhemos no mesmo lugar.
Mas por era, apenas bebamos, sonhemos e esperemos a chuva alagar nossa mente vazia.
Aos meus súditos, meu nome é Príncipe Manco.