terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O instante em que eu vislumbrei Luz.


Às vezes nós esquecemos aquilo que devemos proteger. Às vezes nós nos esquecemos de que o tempo é supremo, e que acima dele há o vazio.
Onde nós estamos, agora? Enquanto o mundo faz barulho. Enquanto árvores caem, gatilhos são puxados, pessoas bebem e riem, pessoas nadam em lindos lagos, gatos dão cria, cachorros se mordem até sangrarem, elefantes velhos deixam a manada ir à frente, mulheres solitárias rezam o terço, trabalhadores batem o martelo no metal, crianças costuram nossos tênis, peixes nadam na direção contrária do rio, pessoas dormem na sarjeta sob a chuva, adolescentes perdem os namorados. E onde não há vida que se veja, há vida. As correntezas arrastam, as ondas quebram, o vento uiva e sussurra raspando as pedras azuladas das grandes montanhas, as cavernas gotejam milenarmente, a chuva e a neve caem, a terra se enche de grossas camadas de neve, os icebergs viajam balançantes. Por estarmos onde estamos, todas essas coisas deixam então de existir? Ninguém mais está sofrendo nem sendo feliz?
De que valem todas as nossas virtudes se deixamos escapar a única coisa que nos vale? Não conseguimos parar de nos enganar, contemplando uma vida sem sentido, vivendo num mundo que não sabemos entender.
A nossa única perspectiva de realidade é a mesma mesquinharia, limitada e fácil. Um veneno que a cobra chamada cegueira inoculou em nossas veias, que percorre nosso corpo e nos deixa doentes. A pior doença que poderíamos ter, uma cegueira contagiosa, uma treva geral sobre o solo do planeta, fazendo todos deixarem para trás uma parte de si, no meio do caminho, para ser pisoteada pelos restantes. Um sacrifício a ser entregue para poder lembrar de como falar com as pessoas, como se sentar a mesa, como não se morrer de fome, como permanecer calado, como esquecer. Para podermos viver em sociedade.
Nessa sociedade?
Nada mais nos faz sentido, mas não nos importamos. Continuamos a agir da única maneira que sabemos. Escrevemos nossos textos apaixonados, pedimos perdão, choramos e fazemos promessas. E erramos novamente.
O homem ergueu grandes cidades. Casas, prédios, arranha-céus magníficos. Obras da arquitetura no centro de São Paulo, que as pessoas não param para olhar. Tijolo sobre tijolo torto nas periferias. Torres enormes, energia passando e se espalhando através de fios, ruas, calçadas, sinalização de trânsito. Ele construiu uma enorme prisão, mas não com celas. Porque o preso segue resignado até ele digerir a idéia do cárcere.
Mas o pior cárcere é aquele que nós colocamos na nossa própria mente.
O egoísmo.
A inveja.
A preguiça.
O rancor.
A arrogância.
A indiferença.
Quantas mãos famintas eu, um principezinho tão bem alimentado, já não afastei? Quantas pessoas eu já não magoei? Já desviei quantos olhares, já proferi quantas palavras ácidas, já praguejei inutilmente quantas máscaras para o meu desejo de vingança, já ironizei quantas vidas, já fechei os olhos para quantas chacinas?
E a vergonha que resta, onde colocar? Atrás do orgulho?
A vida é...
Vamos parar e respirar.
Vamos parar.
Por favor, vamos parar e lembrar de voltar para buscarmos nossos corações.
Vamos proteger a única coisa que realmente importa.
A fome se mata. A dor passa. A febre se cura. O sorriso se esvai. A neve derrete. As nuvens sopram, o Sol resplandece em nossas faces.
Mas a morte nunca volta atrás.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Infância do Submarino


  Essas lembranças são de uma das vezes em que fui na casa de minha avó, Ana, onde antes ela havia morado com meu falecido avô Augusto.
   Eu não queria ir. Não tive opções. Minha mãe queria conversar com ela, e não permitiu que eu ficasse em casa, com meus livros. As únicas coisas que eu tive tempo de fazer antes de sairmos do apartamento velho em que morávamos foram enfiar minha gaita vermelha no bolso direito, na coxa de meus jeans surrados, e enterrar meu quepe de qualquer jeito sobre meus cabelos loiro-claros. Pegamos o carro de minha mãe e ela passou uma hora dirigindo até chegarmos na cidade vizinha, bem menos simples que a nossa.
   Minha mãe tinha duas irmãs mais novas e um irmão mais velho. Todas as minhas três tias estavam lá. Seus maridos provavelmente estavam trabalhando, e seus filhos, estudando. Aparentemente eu era o único cujos professores estavam participando da greve, que foi acabar uma semana depois. Também era eu o único elemento masculino da casa, se não formos contar com os bigodes da tia Amélia.
   Tia Antônia era magra e tinha um sorriso entristecedor. Seus dentes eram amarelados de fumo. Ninguém parecia notar nada de miserável naquele sorriso frouxo, apenas eu. Ela prendia os escassos cabelos castanho-claros em um coque meio solto e alto, e tinha dedos finos e compridos que deslizavam pelo meu rosto enquanto ela dizia "que menino mais bonzinho". Nunca gostei de pessoas problemáticas, mas ela me despertava grande curiosidade.
   Talvez o marido dela, irmão de minha mãe, batesse nela e enchesse a cara com pinga barata. De qualquer forma, ela se suicidou um ano depois.
   Minha tia Rosana era gorda e, como se o nome o sugerisse, rosada, e lembrava muito minha mãe com cabelos da cor dos meus. Cozinhava para mim quando eu a visitava, por isso, gostava de ir até a casa dela, apesar de não gostar de conversar com ela. Ela me fazia perguntas sempre, "você ainda gosta de navios?" ou "já arranjou uma namorada, Henrique?". Eu jamais daria as mãos e beijaria o rosto (conceito de namoro que tia Rosana achava que eu, com catorze anos, tinha) de nenhuma das garotas que eu conhecia. As que não eram sentimentais eram como a Suzie da minha segunda série, legais mas de cabelos ou narizes ou dentes ou mãos feios ou usavam óculos. De qualquer maneira, eu respondia monossilabicamente enquanto mastigava o meu pedaço de torta de maçã.
   Tia Antônia e tia Amélia estavam sentadas em duas poltronas floridas na sala de visitas, desenvolvendo uma interessada conversa sobre ferros de passar roupas, enquanto no sofá mamãe e vovó Ana folheavam um álbum empoeirado de fotos apoiado sobre a mesa de centro. Tia Rosana andava pela cozinha, e o cheiro de torta de maçã assando começava a se espalhar pela casa.
   Já eu, ficava sentado em um banco, agradavelmente esquecido e levemente entediado. Observava, distante, as pinturas horríveis de flores e naturezas mortas penduradas na parede cor creme da sala. O trabalho das molduras era muito mais bonito que as telas em si. Talvez fosse melhor pendurar apenas as molduras, vazias e vazadas. Pedi licença com discrição e segui até o corredor. Subi as escadas em espiral, tentando pisar nas partes mais largas dos degraus.
   No corredor do segundo andar, havia algumas portas. Segui até o quarto de minha avó, e tentei abrir a porta o mais silenciosamente possível. Esta rangeu tão lentamente quanto eu a empurrei, então me esgueirei cômodo adentro sem abri-la por completo. Minha avô costumava dormir sozinha numa cama de casal. O quarto tinha o cheiro dela, uma mistura de sabonete, flores e hospital. Ao lado esquerdo da cama havia uma foto de meu avô sobre o criado mudo. Ao lado direito, perto da janela, um abajur florido e um despertador sobre outro criado mudo. Abri as portas do armário e revirei um pouco, achando calcinhas velhas e rendadas, sutiãs de tons lavados, pijamas moles e vestidos de bolinha, entre outras peças gastas. Na última gaveta, porém, revirei alguns pullovers pinicantes e, com surpresa, apalpei e achei outra coisa. Segurei.
   Ao trazer a tona o objeto encontrado, me maravilhei. Era um relógio de bolso de prata com a figura em alto relevo de uma fragata à vela clássica. Um objeto completamente inutilizado, sujo e ironicamente esquecido no tempo, que eu acreditava ser do meu avô, assim como o quepe sobre minha cabeça. Meu avô nunca ingressou na marinha, mas ele amava navios. Minha avó detestava uma falsa insígnia de ombro que ele possuia quando eu tinha cinco anos, com duas faixas douradas e uma terceira com uma volta. Eu não fazia idéia do que aquilo significava, mas eu brincava com o objeto. Até o dia no qual meu avô o entregou para meu primo Douglas, filho da tia Amélia.
   Eu guardei o relógio no bolso esquerdo da minha calça e tentei organizar os agasalhos de lã de volta na gaveta. Ficaram satisfatórios, mas longe de estarem como os encontrei. Fechei a porta do armário e ao levantar, senti que os dois objetos que eu levava no bolso pesavam minhas calças para baixo, e eu estava sem cinto. Botei as mãos nos bolsos, segurando os objetos, e voltei ao corredor. Agora que me recordo, não lembrei de fechar a porta. Espiei os outros quartos, mas estavam quase vazios. Eram três, com armários em compensado, criados mudos que eram, na verdade, banquinhos largos, um deles tinha uma cortina vermelha a bloquear a claridade externa, deixando o quarto vampiresco, e o maior tinha um espelho de pé quadrado ao pé da cama, virado para a porta. Observei meu reflexo, com uma mão no bolso e a cara cheia de espinhas, e então, fechei a porta maquinalmente.
   Ao chegar à escada em espiral e estacar no primeiro degrau, senti uma aflição ao olhar para o último, no andar de baixo. Nunca fui chegado a alturas. Fui descendo os degraus, segurando-me prudentemente ao corrimão.
   Quando retornei à sala, parecia que minha mãe tinha dado por minha falta, pois me olhou e me chamou. A torta da tia Rosana já impregnava seu cheiro canelado pela casa toda. Cheguei à mesa de centro e parei ao lado de minha avó, olhando em direção ao chão. Ela pediu "sente-se ao meu lado, Henrique". Eu sentei no sofá, resignado ao desconforto familiar. "Clarice," ela continuou enquanto folheava o álbum, "lembra desse portão?"
   Minha mãe fitou a foto com um sorriso torto. "Lembro, claro que sim." Vó Ana também sorriu, ambas sorriam muito parecido, e olhou para mim com aqueles olhos de óleo de castanha, "E você, Henry?"
   Eu não sorri. Meu sorriso era a imagem de meu pai, do que pude ver nas fotos que um dia achei na gaveta da minha mãe, enquanto vasculhava por cigarros. Não os achei das últimas vezes que procurei. Minha mãe não fumava, mas costumava guardar os cigarros favoritos do meu pai junto com algumas fotos dele, como se esperasse que, atraído pelo cheiro forte de tabaco daquela gaveta, ele voltasse, deitasse na cama com o coturno calçados e gritasse "Clarice, vá comprar umas cervejas e panos, esse lugar está nojento!". Depois que ela viu que eu estava começando a fumar com treze anos de idade, arranjando cigarros com os homens insensíveis nas calçadas dos bares, ela os jogou fora e me chamou para conversar. Eu causava uma grande comoção quando sorria, nos jantares de família. Todos me olhavam e diziam que eu era igual ao meu pai, com distantes memórias, um transe se instaurava no recinto todo por alguns instantes. Meus olhos causavam uma movimentação semelhante quando eu chegava e quando eu ia embora, mas curiosamente eram esquecidos no meio-tempo, podendo observar tudo à vontade.
   "Não sei", respondi. Na verdade o portão de ferro, com uma trepadeira cobrindo os muros de ambos os lados, me parecia familiar. Eu não conseguia lembrar de nada, mesmo olhando além, para a casinha que ficava atrás dele, as árvores no caminho, as flores no pé do muro. "Já moramos nessa casa, filho." Eu não lembrava de nada daquilo, mas minha mãe já havia me contado sobre a casa que morávamos até meus dois anos de idade. "Era gostoso, tinhamos um cachorro, lembra? Você às vezes chamava pelo nome dele, como era mesmo o nome dele, mãe?" E minha avó emendou, "Era um ótimo cachorro, adorava o Henry, mas tivemos que sacrificar. Foi muito triste." E eu permaneci calado, sem conseguir lembrar o nome do animal, olhando para o pé da mesa de centro.
   Minha avó virou a página. Tinham alguns familiares na página seguinte e na próxima. Parecia ser uma festa em família. Eu reconheci alguns rostos: meus tios, incluindo o irmão de minha mãe, Thiago, hoje viúvo e bêbado, meus primos Douglas e Arthur, filhos da tia Amélia, e dois dos três filhos de tia Rosana, Marrie e Thiago (em homenagem ao tio), que como o pai tinham cabelos escuros. Reconheci um amigo do Douglas, que gostava de botar fogo em gatos, e uma velha vizinha da minha avó. As fotos pareciam todas iguais, as pessoas sorridentes, conversando, comendo, bebendo e por vezes olhando para o lado oposto da câmera, enquanto eu aparecia em algumas fotos, com a minha habitual cara de idiota. Vó Ana e Clarice faziam comentários, alguns cheios de nostalgia, outros apenas mexericos de mulher, e um ou outro eram até engraçados, como o comentário sobre Douglas por minha avó, "Esse menino sempre foi meio orelhudo." Tia Amélia ouviu e deu risada com gosto. Tinham fotos de bebê, e eu aparentemente era o menor de todos. Ainda que gordinho, os outros eram verdadeiras almofadas rosas. Eu tinha cara de sono.
   Quando o álbum estava acabando, me mandaram ir buscar outro, na segunda prateleira de uma estante de ferro que havia na sala. Eu parei na frente da estante, olhando um cavalo de pedra empinando na terceira prateleira, e fiquei a contemplar a minha infância. Nesse momento, tinha impressão que o nome do cachorro era Nicolau. Senti muito por sua morte e peguei o álbum velho de capa branca.
   Ao me sentar, minha mãe e minha avó ainda viam as fotos do que parecia ser uma reunião de família no campo. Eram fotos muito velhas em sépia, e eu aparentemente ainda não estava vivo nem em hipótese, minha mãe e Rosana estavam jovens e magras e tia Amélia tinha cabelos muito longos, tramados numa trança. Eu abri o álbum e folheei. Haviam fotos de brinquedos de madeira, de Amélia apoiada num carro velho com um cigarro na mão, uma grande quantidade de fotos de adultos que eu não fazia idéia de quem eram. Em uma foto que eu estava tinha um cara com um bigode grosso ao meu lado, com a mão no meu ombro. Eu devia ter uns dez anos, mas por mais que eu me esforçasse, não lembrava quem era o cara e também não me conformava de esquecer que lugar era aquele. Tinha fotos de uma vez que eu fui com o jovem Thiago e a Marrie em uma cachoeira, e uma delas era de Marrie chorando porque tinha levado um tombo no caminho de volta para o carro. Tinha uns onze anos, como eu, e Thiago tinha oito. Era na época que eu viajava com meus tios e primos nas férias. Quando eu voltava para casa, minha mãe parecia bem mais animada do que quando eu partia.
   Pousei o álbum sobre a mesa de centro, para as outras o verem, e minha mãe foi passando vagarosamente desde onde eu havia parado, na metade. Numa das fotos, ela parou, e olhou para mim, enquanto minha avó dizia para tia Rosana me trazer um pedaço de torta. Eu olhei para a foto. A menina na foto, no entanto, não me olhava de volta. Olhava a sua frente, com os cabelos esvoaçando em suas costas. Estava a segurar as cordas de um balanço, lançando-se para frente. Não sorria. Tinha olhos castanho-claros, molhados e brilhantes, e uma pele clara que sob a luz do pôr do Sol parecia aveludada. Sua expressão era profunda. Nunca tinha visto uma garota assim, acho. Fiquei a observá-la, e ela parecia o meu extremo oposto: Viva, boa e aérea.
   Fiquei ali, sentindo como me sentia quando ia subir as escadas em espiral e via o primeiro degrau, lá em cima, bizarro de se alcançar. Aí minha mãe disse algo que eu só lembro em partes: "É a filha da tia Amélia, aquela que estuda em um colégio interno (...)", e não lembro do nome da garota, se é que foi dito. Minha tia Rosana estendeu meu prato com uma fatia gorda de torta, e ao levantar para segurá-lo, senti o relógio rolar dentro do meu bolso. Sentei-me e comi em silêncio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Gaiolas e seus poleiros quebrados


"Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor"
Nosso Estranho Amor - Caetano Veloso





Tenho um medo irracional e injustificado de perder aquilo que não me pertence. Como meus sonhos, singelas nuvens a serem dispersas...
Se não fosse crime, eu arrancaria aqueles lindos olhos claros. Arrancaria por saber que tu gostas deles. Arrancaria fora o que tu gostas em todos que cruzassem teu caminho, arrancaria fora deles não pelo ódio, mas pelo amor; esse doente infectante que sobrepuja meu discernimento, já tão escasso, tão vacilante.
Mas que hipócrita sou eu... E que teia é aquela tecida por minha gana de te possuir... Só meu.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Amores de Verão

"Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou, o que virá,

Só por hoje vou me lembrar que sou feliz"
Só Por Hoje - Legião Urbana

Como uma lufada no peito. Diferente da dor, mas dolorosamente incrível. Uma coisa que enche até a borda algum lugar do meu peito. Uma coisa que a minha cabeça não consegue acompanhar, e tenta digerir, em leituras e releituras, em lembranças e promessas relembradas, promessas feitas a mim mesma.
É assustador quando tudo vai bem. Mas o que é felicidade? Eu não faço a mínima idéia. Mas acho que sem a dor que eu remoi e enrolei em meu coração por tanto tempo, eu nem sequer saberia como ela é.
Eu me perdi. Eu me desesperei. E quando me via sozinha e sem sentido, eu senti. Diferente de uma iluminação, mas um grande arrebatamento, uma coisa crescendo dentro de mim, de cada parte do meu corpo e alma, uma vontade cada vez maior de viver. E um medo cada vez maior de deixar a todos e a tudo, na minha ânsia de complexidade, no meu tempestuoso e sistemático raciocínio classificatório, na minha grande dúvida chiaroescura entre minha cova rasa, imóvel e indiferente e a minha queda livre. Livre.
Ouvi diversas vezes que não poderia continuar daquela maneira. Que desejavam bem a mim. E muitas vezes eu desacreditei, eu confesso. Eu estava cavando apaticamente a minha cova rasa, jogando fora as flores, as pessoas, as ofertas, os sorrisos. Mas não foi por mal. Eu, inclusive, nunca vou acreditar que fiz errado.
Dentro daquela cova acabei vacilando uma vez ao enfincar tortamente a minha pá duvidosa e confusa no chão. E encontrei algo lá dentro que hoje eu carrego.
Eu encontrei um pedaço de mim, afoito pelo ar. Eu mesma, incompleta, enterrada lá dentro.
Lentamente me debrucei sobre mim e espanei, assoprei, e demoradamente, a terra começou a se mover para os lados.
Por medo e insegurança, por inveja e ciúmes, por mania de perseguição, seja lá o que for, eu neguei pessoas que queriam me ajudar e estar comigo. E parece irracional que eu pudesse erguer uma barreira que eu mesma não pudesse ver, mas ela estava lá, bloqueando muito do que era externo de penetrar em minha circulação. Mas um incômodo que essa barreira me dava quando algo externo a burlava e chegava a mim, me dizendo que eu ia perder tudo que eu não estava conseguindo processar em sentimentos, sacudiu silenciosamente o meu ser.
Outra coisa que me sacudiu foi o sentimento de amor que eu sentia por quem não queria me magoar. O sentimento em si claramente não me incomodava, mas sim, o medo de errar, de vacilar, de incomodar e de acabar sumindo. Mas o amor é sempre maior, e ele venceu.
Um dia na praia, cílios cheios de areia, e aquela feição amiga, com aquele sorriso pelo qual me apaixonei. Isso tudo me venceu. Me convenceu.
Também me convencia a antiga amizade com aquela por quem eu me afeiçoei desde o primeiro dia, amizade esta que jamais eu abandonei ou apaguei dentro de mim. Trouxe consigo uma compreenssão, uma admiração mútua, e um reencontro certeiro: mesmo que depois de anos nós ficássemos sem nos ver, o abraço sempre seria o mesmo abraço macio, e as risadas seriam as mesmas risadas sinceras. A família seria a mesma família receptiva e o carinho, o mesmo carinho protetor.
Eu estava tocada. Com os olhos desenterrados.
Da mesma maneira, o teto sobre mim se abalou. Tive que perceber que não posso ficar embaixo do mesmo teto para sempre. Precisava ser livre, e precisava, simplesmente, ser. Com a legitimidade de alguém que busca a independência. E mesmo com as minhas muitas dúvidas, pela primeira vez em muito tempo, o futuro me atraiu. Eu senti grande tendência a agarrá-lo. Agarrar minhas paixões, ocupações e também, agarrar meus defeitos e meus caprichos de menina mimada e aceitá-los, suavizando suas formas. Apesar do meu medo e inabilidade.
O futuro não só meu mas de todos a minha volta pareceu, depois, começar a me atrair. Uma série certa de mudanças e eventos era profetizada pelos meus sentidos. Eu já as conhecia, já as previa e tinha delas profunda incerteza e um receio de quem não quer perder nada para ganhar nada. Continuo não querendo perder nada. Mas a expectativa de mudança após tanto tempo de uma sensação desconfortável de anestesia misturada a um formigamento mórbido me traz uma euforia e ansiedade que eu só sinto, admito, quando me deparo com coisas novas.
Talvez eu possa dizer que estava com as orelhas descobertas, também. Olhos e orelhas. Mas ainda imóvel, ainda afoita, meu pedacinho não se contentava. Eu estava incomodada, sem conseguir me expressar por completo.
Grande foi a noite em que, reunidas por um interesse em comum, nós descobrimos coisas importantes sobre nós mesmas. Nesse dia, eu armei cerco contra aquela grande barreira, e vi barreiras caírem aos meus olhos. Não posso dizer ao certo como anda a situação destas, mas aquela eu vi, pelo menos por um tempo, por chão. E aquelas coisas que estavam a segurando, como a insegurança e o ciúmes, escaparam endiabrados e foram descobertos, mas eu também fui descoberta.
Talvez nesse dia eu tenha encontrado a minha voz, na minha desengonçada escavação.
Um incômodo de não conseguir me relacionar com pessoas pelas quais eu tenho grande interesse e certa afeição também me acometeu. Mas olha só, ainda tenho que lidar com ele. Eu sei que eu vou conseguir desbravá-lo.
Então eu não fui desenterrada? Eu não tenho como saber, porque sonhos são objetos incertos, e mesmo se eu estiver acordada (e hoje eu imploro para que eu realmente esteja), sentidos e memórias são enganadores natos. Mas acho que eu realmente fui desenterrada, porque eu senti algo por trás de toda essa quase-epifania serena que passou por mim.
Foi tão rápido e me arrematou. Me puxou a força, mesmo. Talvez eu tenha ajudado, e creio que o fiz, mas é certo que não sou mais forte do que o que segurou minhas mãos.
Sinto que saí da cova e que consegui me fundir a mim mesma novamente.

Uma lufada no peito que chega a doer, e um frio na barriga. É como cair em queda livre. Mas por hoje, eu só quero cair, esperando nunca mais encontrar a terra. Esperando que essa queda me deixe voando para sempre, cantando a nossa música e acreditando.