Às vezes nós esquecemos aquilo que devemos proteger. Às vezes nós nos esquecemos de que o tempo é supremo, e que acima dele há o vazio.
Onde nós estamos, agora? Enquanto o mundo faz barulho. Enquanto árvores caem, gatilhos são puxados, pessoas bebem e riem, pessoas nadam em lindos lagos, gatos dão cria, cachorros se mordem até sangrarem, elefantes velhos deixam a manada ir à frente, mulheres solitárias rezam o terço, trabalhadores batem o martelo no metal, crianças costuram nossos tênis, peixes nadam na direção contrária do rio, pessoas dormem na sarjeta sob a chuva, adolescentes perdem os namorados. E onde não há vida que se veja, há vida. As correntezas arrastam, as ondas quebram, o vento uiva e sussurra raspando as pedras azuladas das grandes montanhas, as cavernas gotejam milenarmente, a chuva e a neve caem, a terra se enche de grossas camadas de neve, os icebergs viajam balançantes. Por estarmos onde estamos, todas essas coisas deixam então de existir? Ninguém mais está sofrendo nem sendo feliz?
De que valem todas as nossas virtudes se deixamos escapar a única coisa que nos vale? Não conseguimos parar de nos enganar, contemplando uma vida sem sentido, vivendo num mundo que não sabemos entender.
A nossa única perspectiva de realidade é a mesma mesquinharia, limitada e fácil. Um veneno que a cobra chamada cegueira inoculou em nossas veias, que percorre nosso corpo e nos deixa doentes. A pior doença que poderíamos ter, uma cegueira contagiosa, uma treva geral sobre o solo do planeta, fazendo todos deixarem para trás uma parte de si, no meio do caminho, para ser pisoteada pelos restantes. Um sacrifício a ser entregue para poder lembrar de como falar com as pessoas, como se sentar a mesa, como não se morrer de fome, como permanecer calado, como esquecer. Para podermos viver em sociedade.
Nessa sociedade?
Nada mais nos faz sentido, mas não nos importamos. Continuamos a agir da única maneira que sabemos. Escrevemos nossos textos apaixonados, pedimos perdão, choramos e fazemos promessas. E erramos novamente.
O homem ergueu grandes cidades. Casas, prédios, arranha-céus magníficos. Obras da arquitetura no centro de São Paulo, que as pessoas não param para olhar. Tijolo sobre tijolo torto nas periferias. Torres enormes, energia passando e se espalhando através de fios, ruas, calçadas, sinalização de trânsito. Ele construiu uma enorme prisão, mas não com celas. Porque o preso segue resignado até ele digerir a idéia do cárcere.
Mas o pior cárcere é aquele que nós colocamos na nossa própria mente.
O egoísmo.
A inveja.
A preguiça.
O rancor.
A arrogância.
A indiferença.
Quantas mãos famintas eu, um principezinho tão bem alimentado, já não afastei? Quantas pessoas eu já não magoei? Já desviei quantos olhares, já proferi quantas palavras ácidas, já praguejei inutilmente quantas máscaras para o meu desejo de vingança, já ironizei quantas vidas, já fechei os olhos para quantas chacinas?
E a vergonha que resta, onde colocar? Atrás do orgulho?
A vida é...
Vamos parar e respirar.
Vamos parar.
Por favor, vamos parar e lembrar de voltar para buscarmos nossos corações.
Vamos proteger a única coisa que realmente importa.
A fome se mata. A dor passa. A febre se cura. O sorriso se esvai. A neve derrete. As nuvens sopram, o Sol resplandece em nossas faces.
Mas a morte nunca volta atrás.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não comente em vão, porquer eu vou ler.