terça-feira, 1 de maio de 2012
Mãos dançantes e bobagens congeladas.
Sinto o frio na ponta dos meus dedos, e logo não sinto nada. Detesto luvas, pois para preencher o vazio tátil da língua e dos lábios é que preciso sentir as extremidades formando outros tipos de dizeres, palavras em pleno tap tap tap
e assim meus dedos endurecem, e agora, com o sangue barrado pelos cristaizinhos infiltrados nas juntas, ficam arroxeadinhos, débeis, com dificuldades para agir em seu incessante tap tap tap.
Pois o inverno se aproxima, pois o tempo não respira, pois o presente descompassa, pois a vida se dispersa, pois o mundo todo não parece estar sempre a girar, mas gira. E esse vento todo, será o mundo girando? Ou será o silvo da solidão que enrola meu peito em constrição, o uivo da lua que quebra em prateados de brilhantes na rua?
E se meus dedinhos caíssem? Como seria ser muda de dedos? Apavorante é pensar em não poder passar as noites de inverno aqui, ignorando o por-ti-amado frio, o sono que dói os olhos, a solidão que faz barulho de rastro na areia e cobreja maldita. Ignorando a minha própria piração, já que fico louca de não conseguir (ar)rumar meu raciocínio, de desejos e confissões, de nos desentendermos propositalmente sem querer. Ignorando a carência ao ler tuas palavras não como som, mas como abraço. Apavorante é pensar que meus dedinhos tão delicados conquistaram teu afeto, e que eu posso ser suficiente com meu tap tap, meu desatino desenfreado, minha conversa vã e minha paixão sem explicação (mas certamente também é idéia que enche meu peito).
Se eu gastasse todos meus dedos, será que você tentaria me amar pela minha voz?
Minha voz rouca de inverno não é nem de longe mais interessante do que o tap tap tap dos meus dedos pequeninos.
Assinar:
Postagens (Atom)