Estava sentada num assento do metrô.
O vagão estava vazio. Assim como o lugar ao seu lado, vago.
A janela aberta deixava o ruído absurdo do percorrer dos trilhos entrar e ensurdecer os pensamentos sólidos, enquanto o barulho do ar resistindo à superfície metálica, como um gritinho rouco de uma mulher triste, pervertia os pensamentos abstratos.
E naquele monte de nada, ela ruiu e começou a falhar, num barulho de soluço. Sua solidão falhou e escorreu pelos olhos.
Seu desespero era silencioso e sua compreensão quase inatingível. E sua imagem, melancólica, era quase cinza. Encolhida em si mesma e na sua aparência ordinária e meio medíocre, ela tornava os olhos de um lado para o outro, tentando escapar da imagem da sua própria decepção.
Estava sentado num assento do metrô.
O vagão estava quase vazio. Exceto pelo lugar a sua frente, ocupado.
A janela aberta deixava entrar um ruído barulhento, que era sentido em sua magnitude dentro do corpo, e a leveza do ar batia na enorme estrutura de metal e emitia um zunido fresco e perturbador.
E naquele monte de movimento, ele aspirava a respeito de amor, lágrimas e suicídio.
Aspirou também a se distanciar do que havia de infeliz no mundo. Como pessoas ignorantes, vícios, mentiras e promessas subvertidas e enterradas.
Só então, na procura de uma imagem, olhou para o assento à sua frente e viu uma menina.
Ele não sabia então quão bela ela era, mas tentou saber.
Ela tinha os olhos pequenos, as pálpebras inchadas e excessivas pintas no rosto. Tinha o cabelo um pouco crespo preso num rabo de cavalo e uma boca encorpada, porém gentil.
Então viu aquela beleza escorrer pelos olhos dela, brilhando numa aura cinzenta com timidez, com desespero mudo e com solidão.
Na medida que ela não tinha coragem de olhar na direção de seu observador, ele gostou dela, e na medida que ela soluçava, ele a achou humana e, então, digna de confiança.
Por isso, confiou cegamente a ela o sonho de que a humanidade não estivesse perdida. Que ainda houvessem os que soubessem cumprir promessas e escrever versos de amor.
Então seus olhos se encontraram e cortaram mil divagações, projetando, no tempo, um silêncio.
Ela sentiu vergonha de suas lágrimas, e as enxugou rapidamente.
Ele sentiu vergonha de sua distância, e sorriu.
Mas de repente ela não se sentiu mais só, e imaginou se aquele moço sabia cumprir promessas e escrever versos de amor.