domingo, 26 de fevereiro de 2012

Infância do Submarino


  Essas lembranças são de uma das vezes em que fui na casa de minha avó, Ana, onde antes ela havia morado com meu falecido avô Augusto.
   Eu não queria ir. Não tive opções. Minha mãe queria conversar com ela, e não permitiu que eu ficasse em casa, com meus livros. As únicas coisas que eu tive tempo de fazer antes de sairmos do apartamento velho em que morávamos foram enfiar minha gaita vermelha no bolso direito, na coxa de meus jeans surrados, e enterrar meu quepe de qualquer jeito sobre meus cabelos loiro-claros. Pegamos o carro de minha mãe e ela passou uma hora dirigindo até chegarmos na cidade vizinha, bem menos simples que a nossa.
   Minha mãe tinha duas irmãs mais novas e um irmão mais velho. Todas as minhas três tias estavam lá. Seus maridos provavelmente estavam trabalhando, e seus filhos, estudando. Aparentemente eu era o único cujos professores estavam participando da greve, que foi acabar uma semana depois. Também era eu o único elemento masculino da casa, se não formos contar com os bigodes da tia Amélia.
   Tia Antônia era magra e tinha um sorriso entristecedor. Seus dentes eram amarelados de fumo. Ninguém parecia notar nada de miserável naquele sorriso frouxo, apenas eu. Ela prendia os escassos cabelos castanho-claros em um coque meio solto e alto, e tinha dedos finos e compridos que deslizavam pelo meu rosto enquanto ela dizia "que menino mais bonzinho". Nunca gostei de pessoas problemáticas, mas ela me despertava grande curiosidade.
   Talvez o marido dela, irmão de minha mãe, batesse nela e enchesse a cara com pinga barata. De qualquer forma, ela se suicidou um ano depois.
   Minha tia Rosana era gorda e, como se o nome o sugerisse, rosada, e lembrava muito minha mãe com cabelos da cor dos meus. Cozinhava para mim quando eu a visitava, por isso, gostava de ir até a casa dela, apesar de não gostar de conversar com ela. Ela me fazia perguntas sempre, "você ainda gosta de navios?" ou "já arranjou uma namorada, Henrique?". Eu jamais daria as mãos e beijaria o rosto (conceito de namoro que tia Rosana achava que eu, com catorze anos, tinha) de nenhuma das garotas que eu conhecia. As que não eram sentimentais eram como a Suzie da minha segunda série, legais mas de cabelos ou narizes ou dentes ou mãos feios ou usavam óculos. De qualquer maneira, eu respondia monossilabicamente enquanto mastigava o meu pedaço de torta de maçã.
   Tia Antônia e tia Amélia estavam sentadas em duas poltronas floridas na sala de visitas, desenvolvendo uma interessada conversa sobre ferros de passar roupas, enquanto no sofá mamãe e vovó Ana folheavam um álbum empoeirado de fotos apoiado sobre a mesa de centro. Tia Rosana andava pela cozinha, e o cheiro de torta de maçã assando começava a se espalhar pela casa.
   Já eu, ficava sentado em um banco, agradavelmente esquecido e levemente entediado. Observava, distante, as pinturas horríveis de flores e naturezas mortas penduradas na parede cor creme da sala. O trabalho das molduras era muito mais bonito que as telas em si. Talvez fosse melhor pendurar apenas as molduras, vazias e vazadas. Pedi licença com discrição e segui até o corredor. Subi as escadas em espiral, tentando pisar nas partes mais largas dos degraus.
   No corredor do segundo andar, havia algumas portas. Segui até o quarto de minha avó, e tentei abrir a porta o mais silenciosamente possível. Esta rangeu tão lentamente quanto eu a empurrei, então me esgueirei cômodo adentro sem abri-la por completo. Minha avô costumava dormir sozinha numa cama de casal. O quarto tinha o cheiro dela, uma mistura de sabonete, flores e hospital. Ao lado esquerdo da cama havia uma foto de meu avô sobre o criado mudo. Ao lado direito, perto da janela, um abajur florido e um despertador sobre outro criado mudo. Abri as portas do armário e revirei um pouco, achando calcinhas velhas e rendadas, sutiãs de tons lavados, pijamas moles e vestidos de bolinha, entre outras peças gastas. Na última gaveta, porém, revirei alguns pullovers pinicantes e, com surpresa, apalpei e achei outra coisa. Segurei.
   Ao trazer a tona o objeto encontrado, me maravilhei. Era um relógio de bolso de prata com a figura em alto relevo de uma fragata à vela clássica. Um objeto completamente inutilizado, sujo e ironicamente esquecido no tempo, que eu acreditava ser do meu avô, assim como o quepe sobre minha cabeça. Meu avô nunca ingressou na marinha, mas ele amava navios. Minha avó detestava uma falsa insígnia de ombro que ele possuia quando eu tinha cinco anos, com duas faixas douradas e uma terceira com uma volta. Eu não fazia idéia do que aquilo significava, mas eu brincava com o objeto. Até o dia no qual meu avô o entregou para meu primo Douglas, filho da tia Amélia.
   Eu guardei o relógio no bolso esquerdo da minha calça e tentei organizar os agasalhos de lã de volta na gaveta. Ficaram satisfatórios, mas longe de estarem como os encontrei. Fechei a porta do armário e ao levantar, senti que os dois objetos que eu levava no bolso pesavam minhas calças para baixo, e eu estava sem cinto. Botei as mãos nos bolsos, segurando os objetos, e voltei ao corredor. Agora que me recordo, não lembrei de fechar a porta. Espiei os outros quartos, mas estavam quase vazios. Eram três, com armários em compensado, criados mudos que eram, na verdade, banquinhos largos, um deles tinha uma cortina vermelha a bloquear a claridade externa, deixando o quarto vampiresco, e o maior tinha um espelho de pé quadrado ao pé da cama, virado para a porta. Observei meu reflexo, com uma mão no bolso e a cara cheia de espinhas, e então, fechei a porta maquinalmente.
   Ao chegar à escada em espiral e estacar no primeiro degrau, senti uma aflição ao olhar para o último, no andar de baixo. Nunca fui chegado a alturas. Fui descendo os degraus, segurando-me prudentemente ao corrimão.
   Quando retornei à sala, parecia que minha mãe tinha dado por minha falta, pois me olhou e me chamou. A torta da tia Rosana já impregnava seu cheiro canelado pela casa toda. Cheguei à mesa de centro e parei ao lado de minha avó, olhando em direção ao chão. Ela pediu "sente-se ao meu lado, Henrique". Eu sentei no sofá, resignado ao desconforto familiar. "Clarice," ela continuou enquanto folheava o álbum, "lembra desse portão?"
   Minha mãe fitou a foto com um sorriso torto. "Lembro, claro que sim." Vó Ana também sorriu, ambas sorriam muito parecido, e olhou para mim com aqueles olhos de óleo de castanha, "E você, Henry?"
   Eu não sorri. Meu sorriso era a imagem de meu pai, do que pude ver nas fotos que um dia achei na gaveta da minha mãe, enquanto vasculhava por cigarros. Não os achei das últimas vezes que procurei. Minha mãe não fumava, mas costumava guardar os cigarros favoritos do meu pai junto com algumas fotos dele, como se esperasse que, atraído pelo cheiro forte de tabaco daquela gaveta, ele voltasse, deitasse na cama com o coturno calçados e gritasse "Clarice, vá comprar umas cervejas e panos, esse lugar está nojento!". Depois que ela viu que eu estava começando a fumar com treze anos de idade, arranjando cigarros com os homens insensíveis nas calçadas dos bares, ela os jogou fora e me chamou para conversar. Eu causava uma grande comoção quando sorria, nos jantares de família. Todos me olhavam e diziam que eu era igual ao meu pai, com distantes memórias, um transe se instaurava no recinto todo por alguns instantes. Meus olhos causavam uma movimentação semelhante quando eu chegava e quando eu ia embora, mas curiosamente eram esquecidos no meio-tempo, podendo observar tudo à vontade.
   "Não sei", respondi. Na verdade o portão de ferro, com uma trepadeira cobrindo os muros de ambos os lados, me parecia familiar. Eu não conseguia lembrar de nada, mesmo olhando além, para a casinha que ficava atrás dele, as árvores no caminho, as flores no pé do muro. "Já moramos nessa casa, filho." Eu não lembrava de nada daquilo, mas minha mãe já havia me contado sobre a casa que morávamos até meus dois anos de idade. "Era gostoso, tinhamos um cachorro, lembra? Você às vezes chamava pelo nome dele, como era mesmo o nome dele, mãe?" E minha avó emendou, "Era um ótimo cachorro, adorava o Henry, mas tivemos que sacrificar. Foi muito triste." E eu permaneci calado, sem conseguir lembrar o nome do animal, olhando para o pé da mesa de centro.
   Minha avó virou a página. Tinham alguns familiares na página seguinte e na próxima. Parecia ser uma festa em família. Eu reconheci alguns rostos: meus tios, incluindo o irmão de minha mãe, Thiago, hoje viúvo e bêbado, meus primos Douglas e Arthur, filhos da tia Amélia, e dois dos três filhos de tia Rosana, Marrie e Thiago (em homenagem ao tio), que como o pai tinham cabelos escuros. Reconheci um amigo do Douglas, que gostava de botar fogo em gatos, e uma velha vizinha da minha avó. As fotos pareciam todas iguais, as pessoas sorridentes, conversando, comendo, bebendo e por vezes olhando para o lado oposto da câmera, enquanto eu aparecia em algumas fotos, com a minha habitual cara de idiota. Vó Ana e Clarice faziam comentários, alguns cheios de nostalgia, outros apenas mexericos de mulher, e um ou outro eram até engraçados, como o comentário sobre Douglas por minha avó, "Esse menino sempre foi meio orelhudo." Tia Amélia ouviu e deu risada com gosto. Tinham fotos de bebê, e eu aparentemente era o menor de todos. Ainda que gordinho, os outros eram verdadeiras almofadas rosas. Eu tinha cara de sono.
   Quando o álbum estava acabando, me mandaram ir buscar outro, na segunda prateleira de uma estante de ferro que havia na sala. Eu parei na frente da estante, olhando um cavalo de pedra empinando na terceira prateleira, e fiquei a contemplar a minha infância. Nesse momento, tinha impressão que o nome do cachorro era Nicolau. Senti muito por sua morte e peguei o álbum velho de capa branca.
   Ao me sentar, minha mãe e minha avó ainda viam as fotos do que parecia ser uma reunião de família no campo. Eram fotos muito velhas em sépia, e eu aparentemente ainda não estava vivo nem em hipótese, minha mãe e Rosana estavam jovens e magras e tia Amélia tinha cabelos muito longos, tramados numa trança. Eu abri o álbum e folheei. Haviam fotos de brinquedos de madeira, de Amélia apoiada num carro velho com um cigarro na mão, uma grande quantidade de fotos de adultos que eu não fazia idéia de quem eram. Em uma foto que eu estava tinha um cara com um bigode grosso ao meu lado, com a mão no meu ombro. Eu devia ter uns dez anos, mas por mais que eu me esforçasse, não lembrava quem era o cara e também não me conformava de esquecer que lugar era aquele. Tinha fotos de uma vez que eu fui com o jovem Thiago e a Marrie em uma cachoeira, e uma delas era de Marrie chorando porque tinha levado um tombo no caminho de volta para o carro. Tinha uns onze anos, como eu, e Thiago tinha oito. Era na época que eu viajava com meus tios e primos nas férias. Quando eu voltava para casa, minha mãe parecia bem mais animada do que quando eu partia.
   Pousei o álbum sobre a mesa de centro, para as outras o verem, e minha mãe foi passando vagarosamente desde onde eu havia parado, na metade. Numa das fotos, ela parou, e olhou para mim, enquanto minha avó dizia para tia Rosana me trazer um pedaço de torta. Eu olhei para a foto. A menina na foto, no entanto, não me olhava de volta. Olhava a sua frente, com os cabelos esvoaçando em suas costas. Estava a segurar as cordas de um balanço, lançando-se para frente. Não sorria. Tinha olhos castanho-claros, molhados e brilhantes, e uma pele clara que sob a luz do pôr do Sol parecia aveludada. Sua expressão era profunda. Nunca tinha visto uma garota assim, acho. Fiquei a observá-la, e ela parecia o meu extremo oposto: Viva, boa e aérea.
   Fiquei ali, sentindo como me sentia quando ia subir as escadas em espiral e via o primeiro degrau, lá em cima, bizarro de se alcançar. Aí minha mãe disse algo que eu só lembro em partes: "É a filha da tia Amélia, aquela que estuda em um colégio interno (...)", e não lembro do nome da garota, se é que foi dito. Minha tia Rosana estendeu meu prato com uma fatia gorda de torta, e ao levantar para segurá-lo, senti o relógio rolar dentro do meu bolso. Sentei-me e comi em silêncio.

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