Sinto falta do que não tive. Clamo por amores dos quais em uma possibilidade de existência eu acredito. Por vezes digo seu nome, sussurrado, só para tentar solidificar uma presença, sintetizar esperanças. Contudo, como o contrário das saudades românticas que intensificam a tórrida obsessão, quando ele se ausenta, meu amor não infla. Este, em fato (ou supõe-se que sim), murcha. A chama oscila. A fumaça se dispersa e a lembrança do seu sorriso foge das imagens dos meus sonhos. Como uma foto gasta pela deprimente luz branca da minha rotina.
Eu anseio pelos desejos despertados por nossas sinceridades e pela sinceridade de nossas confissões. Sinto falta das suas mãos que nunca segurei, das suas palavras que nunca ouvi, dos sentimentos que eu não sei se sei como e quais são e entretanto asseguro que conheço. Quando sinto que seus olhos podem me enxergar, através do mundo e através de mim, é como cravar uma adaga fina em meu peito. Todo o ar e dor que busco me invadem, deixando minha vida escorrer em uma sanguinária torrente de fantasias irracionais. Tudo em uma fração de segundo que inutilmente eu gostaria de guardar.
Mas ele me escapa, pois é névoa e inexistência, é ausência, é ilusão. E é loucura.
Quem sou eu para saber? Para preferir, controlar, querer? Quem somos nós para definir o quanto podemos ser indulgentes com a nossas tempestuosidades e nossos elefantes em xícaras de chá? Eu sou nada mais que a fraqueza a que você me sujeita, me sustentando longe dessa mecânica sequência de temer e afastar, dessa minha insensibilidade e inteligência. Longe da sua ausência e também assim tão próxima desta ao ponto de me amargurar.
Olhando assim, para a luz suja do meu quarto, para as letras que eu defino com as pontas dos dedos, para o teto, chão e porta, para meu travesseiro, para o incenso espiralando no vazio, sei que ele está a viver a sua rotina, a existir à distância, em seus próprios desejos, necessidades e satisfações.
Mas eu peço a ele que volte.
Volte para que eu possa perder o discernimento, desistir de meu sono enquanto fito meus sonhos. Volte para que eu possa ser tola. Volte para eu me lembrar de seu sorriso. Volte para que eu possa arriscar me afogar dentro de sua névoa e nadar, desfrutando dos nossos momentos efêmeros e de suas palavras incertas.
Nadar de olhos fechados, a fingir que posso ver.
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