Sou beija-flor,
sorvendo o mel e semeando a dor.
Toco entre suas rubras pétalas, penetro em seu âmago, e vôo.
Nunca mais a vejo.
As flores que provei não tiveram tempo para amor, apenas para sentir meu sabor amargo, meu resto infame.
Mas, ao menos, não houve momento suficiente para a decepção. E se houve, eu qui-la, a gozar meu ego.
Nada me trás maior angústia que pousar, vendo a vida passar.
Sou beija-flor terrível, que quer flores sinuosas surgidas de lindos vasos adornados,
flores sem mel, atrás de janelas fechadas, em casas iluminadas.
Flores que não me acenam e não vêem em mim o prazer.
Me deixe te mostrar do que eu, bicho feio e pouco, avezinha quebradiça, sou capaz,
não pouso em teu recanto mas eu sugo todo o seu encanto,
te delicio e depois, desejo ir.
Mas após ver-te linda atrás de um angustiante vidro fechado, a acenar para mim com toda a sua elegância, fico a te rondar, sem saber se pouso ou não para observar...
Sou todo pedidos:
"Me deixe beijar teus lábios de mel, minha flor, sorver tua dor e semear o amor."
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