A tristeza não é nada senão um tropeção. Uma queda, bem no chão de concreto molhado. As pálpebras se amolecem por um instante, e o baque surdo torna os olhos opacos, foscos como ferrugem, e por um momento nada mais existe se não você e a sua ausência, junto com a ausência de todas as outras coisas do seu mundo.
Cegueira instantânea é a tristeza, comum em comparação a felicidade. Transitando de um em outro como uma borboleta desvairada, sem rumo, sem certeza e com um fim indiferente. Transitando mais rapidamente, veja você, do que as transições de um afetado bipolar.
O que sou senão uma tristeza constante? Uma depressão.
Depressão no solo do mundo, encolhida e esticada, espásmica dentro de uma vala profunda, comprimida no chão pela atração das entranhas da terra suja. Atração que puxa as minhas pálpebras cada vez mais em direção ao chão, e meus olhares cada vez mais em direção ao absoluto nada. Não o fim, mas o nada.
Não consigo sair. Sou velha demais para sair. Atração que puxa meu tronco para baixo. Meu corpo inclinado não vê luz, e meu tronco cresce torto, enquanto o meu verde morre de fome. Ando pesado. Sem direção. Nem vontade.
O que sonham as pessoas dentro de valas? Desesperadamente, elas têm medo de sonhar com algo. Porque os objetos do sonho as traem.
(Veja bem se é sonho ou não, se é verdade ou impressão. Mera imagem ou ilusão.):
Eu tenho a impressão de pessoas passando na superfície. Caem finos grãos de areia de cima, ouvem-se os passos. Distantes barulhos, quase mentirosos, manipulados pelos meus ouvidos perturbados. Ouço as vozes que um dia eu gostei, e que agora me irritam profundamente. Irritam-me principalmente porque não percebem que estou aqui.
Às vezes eu não sei mais onde estou. Estou perdida na via Láctea, fluxo giratório saindo dos seios de Audumla, saída esta do rompimento do meu cérebro. Mas na verdade eu estou dentro de uma vala, olhando as sombras passarem. As sombras surgidas do rompimento do meu cérebro.
Uma queda permanente, uma borboleta enclausurada.
A presença da ausência da verdade na presença das coisas que eu não sei se estão lá.
Minha cabeça gira e gira,
E pára no mesmo lugar.
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