sábado, 27 de agosto de 2011

Pré-Morte.

Estava preste a morrer.

Suas pulsações eram agitadas e descompassadas e suava como se estivesse deitado na areia do deserto. Escorria como um suco salgado, abundante e desesperador, a ensebar a pele e os cabelos.

Arfava e sentia uma dor forte no peito. Uma espécie de dor que arrebatava sua visão. Uma espécie de dor que apagava o mundo e deixava apenas um coração latejando, inflando, inflamando, saindo dos limites do osso e do tecido corporal.

Mas era bom. Era bom estar morrendo.

Lembrou de sua mãe. Tão bela, não tão jovem. Com um sorriso inabalável no rosto e uma boa-vontade infinita. Com uma força descomunal, cuidava do rebento como uma leoa, independente.

Cacos de vidro pelo chão.

Uma acusação. Duas acusações. Uma cena de ingratidão, e de mútua incompreensão, e se foi. E se olhasse para trás, não veria um sorriso inabalável. Veria os olhos de confusão, a respiração dolorosa, vontade de morrer, o quase abalo das pernas usadas.

Pobre mãe.

Seus olhos desfocaram, embaçaram. Mas enxergava melhor agora. Enxergava tudo, ao passo que seus olhos não viam mais nada direito.

Não viam mais o relógio em seu pulso, mas ele via o tempo passar em sua cabeça. Via o passado ir embora e o futuro esperar. E via o presente se esvair loucamente até o ponto que não o era mais, e pela primeira vez, ele viu que os segundos se perdiam como areia jogada ao vento.

Não viam mais o céu, mas ele enxergava a imensidão. Enxergava o Sol em fusão maravilhosa, a lua em melancolia silenciosa e a massa negra que engolia tudo. Enxergava a imensidão ao enxergar a si mesmo. Um grão de areia, jogado ao vento.

Lembrou-se do ombro do seu melhor amigo. Das risadas, das promessas que não serão quebradas nunca. Do momento em que todos estão juntos e se sentem juntos. Quando o Sol bate no rosto de todos com leveza e o peito de enche de satisfação, e alguma vontade, bem profunda, de derramar uma lágrima de realização. Lembrou de quando todos riam e quando todos choravam juntos. E se lembrou de tempos difíceis e que depois tudo volta ao normal.

Lembrou de ter preferido a solidão. Das passadas retas e silenciosas ao lado dos outros. Dos cumprimentos suprimidos ou arrastados, das promessas da boca para fora. Do momento em que todos estão por perto e se sentem longe. Quando o frio bate contra todos e as lágrimas que nem mais sentem vontade de sair congelam o coração. E que todos mudaram. E que o mundo seguiu adiante.

Seus braços se retorceram. Suas pernas falharam.

Mas era bom.

Era sereno.

Caiu em chão, mas o chão não existia mais. Porque o chão era um limite tolo. Mas ele estava ali, simbolicamente, para ser compreendido. Para ser caminhado. Para ser movido.

Caiu de uma névoa de fantasmas que voavam alto, longe do chão. Uma névoa de pensamentos apegados, que desejava já ter abandonado. Uma névoa de dejá vù e batimentos descompassados. Uma névoa de sufoco, arrependimento, incompreensão.

Mas no chão não havia o que entender. Só o que se havia para entender.

O chão esquentou seu coração.

Lembrou que estava vivo.

Levantou e correu.

Correu mais do que achava que conseguia, e não se importava com nada.

Com nada;

Com as pessoas apontando em sua direção,

Com o que caia do seu bolso,

Com o frio do vento queimando o seu rosto iluminado,

Com as suas medalhas de honra e de glória,

Com medo e fraqueza.

Lembrou que estava vivo. Lembrou de ser sincero. Lembrou de ser bom. Lembrou de ser existir.

Lembrou que estava para morrer, e quando morresse, queria morrer nu. Olhando nos olhos daquilo que importava, o seu mundo, a sua beleza, a sua riqueza, sua maior fraqueza e o seu maior orgulho.

Amor.

E assim, morreu.




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3 comentários:

  1. Com certeza eu sinto que as palavras já não servem para descrever o que essa bela história nos diz. Quero dizer, as palavras pronunciadas, lidas, escritas e gramaticalmente corretas. Só uma música diria algo plenamente fiel a respeito de outra música!

    http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/46991/

    Eu te amo! :)

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  2. Eu não sei se consegui perdoar.
    Mas eu consigo me perdoar por ter errado, e eu consigo esquecer assim.
    Tudo vai mudar e eu vou voltar a viver.

    Eu também te amo, Kaio Cassio.

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  3. É complicado ler seus textos sem ter alguém pra abraçar depois.

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Não comente em vão, porquer eu vou ler.